Na noite de 27 de maio de 2026, a Câmara dos Deputados aprovou a PEC que acaba com a escala 6×1. O placar não deixou margem para interpretação: 472 votos a favor e 22 contra no primeiro turno, 461 a 19 no segundo.
E um resultado expressivo. E especialmente relevante para uma proposta que mexe com a rotina de dezenas de milhões de trabalhadores e com os custos de milhões de empresas brasileiras.
Mas a aprovação na Câmara e apenas metade do caminho. A PEC ainda precisa passar pelo Senado, onde a resistência tende a ser maior. O debate continua, e ele importa tanto para quem trabalha quanto para quem tem empresa.
O Que Foi Aprovado
O texto que passou não é o mesmo das propostas originais, que previam o modelo 4×3 ou redução para 36 horas em dez anos. O que a Câmara aprovou e um texto intermediário, com duas etapas:
- 60 dias após a promulgação: fim imediato da escala 6×1 e redução da jornada de 44 para 42 horas semanais. Todo trabalhador passa a ter direito a dois dias de descanso por semana.
- 14 meses após a promulgação: a jornada cai de 42 para 40 horas semanais, concluindo o processo.
- Setores especiais: saúde, aviação e outros com regime diferenciado terão regras próprias tratadas em leis complementares.
- Microempresas: o texto abre espaço para medidas de proteção a pequenos negócios, também a ser definidas em legislação complementar.
Nenhuma das propostas prevê redução salarial. A proteção ao salário base e expressa no texto.

O Que Ainda Precisa Acontecer
A PEC chega ao Senado e precisa ser aprovada por 49 dos 81 senadores em dois turnos de votação. Sem necessidade de sanção presidencial: uma vez aprovada nas duas Casas, ela e promulgada pelo próprio Congresso e passa a integrar a Constituição.
O prazo ainda e incerto. O recesso parlamentar de julho se aproxima, e o setor empresarial, liderado pela CNI, já entrou em campo pedindo que o Senado amplie o período de transição de 14 meses para quatro anos.
O que está definido e a direção. Com o placar da Câmara, o tema saiu do campo do “talvez”. A questão agora e quando e com qual texto final.
O Que Muda Para Quem Trabalha
Para o trabalhador que hoje cumpre seis dias seguidos para descansar um, o impacto mais imediato e o mais simples: a garantia constitucional de dois dias de folga por semana.
Quem mora em São Paulo ou no Rio e passa duas ou três horas por dia no transporte sabe que o dia de trabalho nunca e só de trabalho. Um segundo dia livre muda a conta.
Além do descanso, há o argumento econômico. Estudo da Unicamp, com 63 pesquisadores, projeta criação de até 4,5 milhões de novos empregos com a redução para 36 horas. Para 40 horas, o IPEA estima impacto parecido com reajustes históricos do salário mínimo, que não derrubaram o emprego.
O risco mais concreto não e perder o emprego. E perder a formalidade. Em setores com margem apertada, aumento de custo tende a empurrar o empregador para a informalidade, não para o desemprego. E trabalho informal e um retrocesso que ninguém ganha.
Quem complementa renda com horas extras também precisa ficar atento. O salário base está protegido. A renda variável, não.
O Que Muda Para Quem Tem Empresa
Aqui o debate esquenta, e os números variam muito dependendo de quem os produz.
A CNC projeta elevação de 21% nos custos da folha e repasse de até 13% nos preços ao consumidor. A CNI estima alta de 6,2% nos alimentos. O FGV IBRE traça o cenário mais pessimista: queda de até 8,12% no PIB e redução de 1,1 milhão de postos formais.
O IPEA, por outro lado, estima aumento médio de 7,8% nos custos com mão de obra, com impacto inferior a 1% no custo operacional total da maioria dos setores. Para grandes indústrias e redes de comercio, absorvível. Para o dono de padaria com três funcionários, talvez não.
O ponto mais honesto desse debate: o impacto não é igual para todo mundo. Uma grande varejista e um restaurante de bairro são empresas completamente diferentes. Qualquer análise que trate os dois da mesma forma está sendo, no mínimo, preguiçosa.
Quanto aos ganhos? Menor rotatividade, menos afastamentos e trabalhadores mais descansados são benefícios documentados. Islândia, Reino Unido e Bélgica testaram jornadas menores com resultados positivos. A ressalva que ninguém gosta de ouvir: esses países tem produtividade por hora muito maior que a nossa. Comparar direto e forçar uma analogia que não fecha.
Se Você Tem uma Empresa, O Que Fazer Agora
A direção da mudança está definida. O que ainda pode mudar e o prazo e alguns detalhes do texto final, dependendo do que o Senado decidir.
Se a CNI conseguir ampliar a transição de 14 meses para quatro anos, o impacto imediato nas empresas diminui. Mas esperar o texto final para começar a se planejar e o erro mais caro que um empresário pode cometer nesse momento.
Três movimentos que fazem sentido agora:
- Simular o impacto de uma redução para 40 horas na folha atual, nos dois cenários de prazo possíveis: 14 meses e quatro anos.
- Mapear quais funções seriam redistribuídas internamente e quais exigiriam novas contratações.
- Acompanhar o andamento no Senado, especialmente a pressão por ampliação do prazo de transição.
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Perguntas frequentes sobre o fim da escala 6×1
A escala 6×1 acabou?
A Câmara aprovou a PEC em 27 de maio de 2026, com 472 votos a favor. Agora o texto vai ao Senado, onde precisa de 49 votos em dois turnos. Não há data definida para a votação.
O que exatamente foi aprovado?
Um texto que extingue o 6×1 e reduz a jornada em duas etapas: de 44 para 42 horas em 60 dias após a promulgação, e de 42 para 40 horas 14 meses depois. O modelo 4×3 não foi aprovado.
O salário cai com a mudança?
Não. O texto proíbe expressamente qualquer redução do salário nominal.
O Senado pode mudar o texto?
Sim. Pode alterar prazos ou outros pontos. Se alterar, o texto volta para a Câmara. O setor empresarial já pressiona por transição de quatro anos em vez de 14 meses.
Quem vai sentir mais o impacto?
Pequenos negócios em comercio, alimentação e serviços. Saúde e aviação terão tratamento especial por lei complementar. Grandes operações com mais flexibilidade absorvem melhor.
Vai gerar empregos ou desemprego?
Unicamp e IPEA apontam para criação de empregos. FGV IBRE alerta para risco de queda no PIB. A transição gradual reduz os riscos nos dois sentidos.
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